REAL VINÍCOLA

 

Futuras instalações no Quarteirão Real Vinícola, Av. Menéres 456,  em Matosinhos Sul.

 

O imóvel destinado à CASA DA ARQUITECTURA está localizado em Matosinhos e ocupa o quarteirão limitado pela Av. Menéres, R. Mouzinho de Albuquerque, R. Sousa Aroso e R. D. João I. As construções agora recuperadas e adaptadas integraram a antiga instalação fabril edificada entre 1897 e 1901 pela sociedade Menéres & Companhia, destinada à Real Companhia Vinícola. Resistente à progressiva transformação industrial e ocupação habitacional do lugar, a sua preservação e adaptação deve-se ao elevado valor patrimonial e cultural. Patrimonialmente é um modelo de inspiração e tradição inglesa, onde existiu a primeira tanoaria a vapor da região. Um ramal da linha de caminho-de-ferro ligava-a às docas do Porto de Leixões para expedição e exportação da produção. O pátio central surge como uma Plaza Mayor, qualificando-o e vocacionando-o para usos coletivos. O imóvel integra o Plano de Urbanização de Matosinhos Sul, da autoria de Álvaro Siza.

 

A CASA DA ARQUITECTURA ocupa parte do quarteirão da Real Vinícola, conjunto recuperado pela Câmara Municipal de Matosinhos com projeto do arquiteto Guilherme Machado Vaz, com uma área de 4.700 m2. As áreas públicas destinadas a exposições e apresentações, com auditório, biblioteca e loja representam 36% do espaço, as de conservação e manutenção 38% e as de gestão e produção interna 10%. Os usos comuns correspondem a 16% da sua superfície.

 

A instalação no Quarteirão Real Vinícola dará à CASA DA ARQUITECTURA as condições físicas e técnicas necessárias à execução da missão a que se propõe. A CASA DA ARQUITECTURA poderá assim, em conjunto com outras entidades nacionais e internacionais, estabelecer uma rede alargada de arquivos de arquitetura, fomentando o intercâmbio de experiências, coleções, métodos de trabalho e técnicos especializados. Estará também em posição privilegiada para assumir a responsabilidade de exibir ao público o trabalho desenvolvido pela rede, uma vez que a maioria dos arquivos atualmente em funcionamento em Portugal não dispõem de área expositiva própria.

 

Também o público necessita de ser recebido num espaço acolhedor e apelativo que ofereça as funcionalidades desejadas. Na Real Vinícola, a CASA DA ARQUITECTURA encontrará um espaço à medida das suas ambições e das ambições do seu público. Um espaço aberto e inclusivo, vocacionado para a receção de todos aqueles que se interessem pela temática da arquitetura.

 

A CASA DA ARQUITECTURA e o Quarteirão Real Vinícola, numa observação mais alargada, integram ainda uma área em transformação e regeneração urbana, onde estão previstos outros equipamentos culturais e sociais, associando-se a um eixo de animação e revitalização importante, urbanística e fisicamente articulado com a “Broadway de Matosinhos”. A sinergia criada e instalada no referido eixo urbano concorre para a sua sustentação económica, física e turística.

 

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Restabelecer o equilíbrio das forças entre a natureza e o espírito humano.

 

Através de uma investigação do contexto histórico dos edifícios industriais da Real Vinícola, construídos entre 1897 e 1901, o projeto de arquitetura – 100 anos depois – tem como suporte as ruínas existentes no local e a sua reabilitação.
“No momento em que o edifício rui” segundo Simmel, “isso não significa outra coisa senão que as meras forças da natureza começam a predominar sobre a obra humana: a equação entre natureza e espírito humano desloca-se em favor da natureza”.
O objetivo principal deste projeto foi restabelecer o equilíbrio das forças entre a natureza e o espírito humano. Um equilíbrio que passou por uma negociação com ambos. Com a natureza, que reivindica, numa luta infindável, um espaço que outrora foi seu; o espírito humano manifestado há cem anos atrás e que construiu esse espaço; e aquele que obrigatoriamente terá de se manifestar hoje e dialogar com os anteriormente referidos.
Exemplo desse diálogo, são as árvores que se mantêm no interior de um dos edifícios e que foram mantidas, criando-se – para que tal fosse viável – pátios exteriores. O edifício voltou a ser ocupado, mas respeitou-se o direito adquirido pela natureza ao longo dos anos em que o local esteve ao abandono.
Procurou-se desenhar – sempre que possível – de acordo com o projeto original. Toda a volumetria exterior foi recuperada, o desenho das asnas de madeira manteve-se, reconstruiram-se carpintarias. Procurou-se manter o espírito industrial do lugar.
Houve alteração de funções, o que implicou novos espaços, infraestruturas e legislação a ser cumprida. As caixas de escadas em betão colocadas no exterior do edifício foram necessárias por razões de segurança contra incêndio. Optou-se por não as introduzir no interior devido ao impacto negativo que as mesmas teriam na estrutura de aço da laje que exprime toda a sua beleza na repetição quase infinita do módulo estrutural criado pelos pilares e as vigas. Foi necessário abrir-se janelas no alçado nascente do quarteirão. Uma vez que estávamos a introduzir um novo elemento no projeto, optámos por assumir o carácter contemporâneo da intervenção em vez de a dissimular, funcionando a janela como uma moldura que é encostada à parede, contrariamente às janelas existentes que são massa retirada à mesma.
Para além de procurar este equilíbrio entre as diferentes forças intervenientes, quisemos que o mesmo fosse visível e se manifestasse em toda a sua verdade porque acreditamos que a matéria deveria, neste caso particular, ser lida no espaço e no tempo.

 

Texto Arq. Guilherme Vaz
Autor do Projeto Real Vinícola