CASA ROBERTO IVENS

A Associação CASA DA ARQUITECTURA está instalada na Casa da Rua Roberto Ivens nº582, em Matosinhos.

A casa pertencia à família do Arq. Álvaro Siza Vieira e foi adquirida em 2007 pela Câmara Municipal de Matosinhos, com o objetivo de receber o CDAS – Centro de Documentação Álvaro Siza. Por protocolo entre a Câmara de Matosinhos e a CASA DA ARQUITECTURA, o CDAS é integrado na CASA DA ARQUITECTURA e, assim, inicia-se um trabalho de colaboração mútua e partilha de instalações. As obras a cargo da CASA DA ARQUITECTURA tiveram inicio em Janeiro de 2009 e terminaram a 15 de Junho. Trata-se da reestruturação de uma casa construída em meados do século XIX e remodelada em 1961, pelo Arq. Álvaro Siza a pedido dos seus pais. Pretendeu-se que a reestruturação da casa fosse, sempre que possível, fiel ao projeto de 1961. Respeitando a intenção estética do seu autor e sempre sob a sua orientação, procedeu-se a ligeiras alterações com o objetivo de tornar o espaço capaz de receber as suas novas funções. Conta com espaços funcionais para a equipa de trabalho, biblioteca, sala de exposições, receção ao visitante, uma pequena loja e, ainda, um jardim onde se prevê a realização de diversas atividades.

A inauguração oficial da CASA teve lugar no dia 25 de Junho 2009.

 

Atendimento e visitas à CASA DA ARQUITECTURA no seguinte horário:

Segunda a Sexta: 10h00 – 12h30 e das 14h30 – 18h00.

Encerrado aos Sábados, Domingo e Feriados.

Para  informações, contacte:

T: +351 22 240 46 63 / 64

info@casadaarquitectura.pt

 

Marcação de vistas para grupos superiores a 10 pessoas para: visitas@casadaarquitectura.pt

 

 

CASA ROBERTO IVENS, 582

Mandada construir por José Gonçalves de Lima Camacho (1831-1892), na 2ª metade do século XIX, esta casa, apesar de manter muitas das suas características originais, foi alvo de transformações que alteraram significativamente a sua primitiva imagem.

José Camacho, um “torna-viagem” enriquecido no Brasil, achou, a exemplo do que era usual na época, que o investimento em imobiliário era a forma mais óbvia e segura de valorizar e reproduzir os capitais acumulados. Esta casa não foi “encomendada” para ser a sua residência. Destinava-se a “render”, fosse através do arrendamento, fosse através de uma eventual e lucrativa venda. José Camacho foi o bisavô materno de Álvaro Siza e seguramente nunca imaginou as peripécias que o seu empreendimento iria passar. Assinalemos então, as principais.

Desde logo, o facto de a casa ter permanecido na família apesar de durante largos anos ter estado alugada a estranhos. Depois, achar-se desocupada quando o pai do Álvaro resolveu deixar a casa da mãe, na Brito Capelo, e a pôde arrendar ainda antes de a poder comprar. Depois ainda, em 1960, a decisão de a remodelar, à medida das necessidades da família e segundo o projeto do filho que começava a consolidar uma carreira de arquiteto de exceção.

Entretanto, em 1954 a casa havia-se tornado a referência pública da tragédia que abalou brutalmente não só a família, mas também toda a comunidade local:  a morte, num estúpido acidente, do Júlio Manuel, o filho mais velho, recém-formado em Medicina.

Ainda que o pai nunca a tenha explicitado, é provável que uma das razões subjacentes à decisão de fazer obras em casa fosse o desejo de exorcizar alguns dos fantasmas que persistiam agarrados aos espaços mais pessoais do filho desaparecido.

Nos últimos anos e após um longo período em que esteve desabitada, acentuou-se a necessidade de se proceder à sua reabilitação.

Adquirida pela Câmara Municipal de Matosinhos para instalar o Centro de Documentação Álvaro Siza, efetuaram-se as obras de recuperação que, apesar da evidente mudança de funções, no essencial refizeram a casa tal como foi proposta no projeto de 1960.

Em relação à forma original, o que é que esse projeto mantinha?

Evidentemente a implantação, as paredes estruturais, os vãos da fachada principal, o número de pisos, o tipo de pavimentos, a solução da cobertura, o telhado, a platibanda.

A compartimentação foi alterada mas seguia, aproximadamente, a distribuição inicial.

Ao analisar com mais atenção esta obra, o que se deve referir e enfatizar é a equilibrada fusão de elementos e princípios da arquitetura moderna numa estrutura tradicional.

A casa original seguia o modelo mais ou menos consensual da casa de rendimento para a média burguesia urbana, bastante compartimentada, construída com materiais de qualidade, mas sem luxos, fachada revestida a azulejos, guarnição de portas e janelas em pedra, marcação dos cunhais em pedra ou cimento, (neste caso é cimento), platibanda, varanda exterior para a rua, varandas interiores para as traseiras, quintal com anexos, poço, galinheiro, coradouro, etc.

O projeto que Álvaro Siza corporizou é notável porque conseguiu criar toda uma nova realidade, alterando o que existia sem o anular.

Quando se entra na casa, tem-se a clara noção de se estar perante um espaço híbrido, mas equilibrado, em que antigo e moderno não só não se excluem como, pelo contrário, convivem sem agressões ou protagonismos estridentes.

As portas verdes, cegas ou envidraçadas, os omnipresentes e avantajados rodapés que espalham o verde por toda a casa ao mesmo tempo que lhe dão unidade e carácter, os candeeiros, os corrimãos, inclusive o grosso e intrigante tubo de fibrocimento, tudo é desenhado “à moderna” e convive perfeitamente com o granito dos degraus ou a alvura do reboco estanhado das paredes ou ainda com a pregnante presença da sucupira no mobiliário precocemente minimalista.

O alçado das traseiras é notabilíssimo porque representa uma solução pessoal onde se podem descortinar as influências que são afirmadas sem complexos porque a aproximação às linguagens de Corbusier ou de Aalto mais não são do que a sua própria reelaboração da solução vernácula que ali mesmo existia.

No logradouro/quintal/jardim, o “reino da minha mãe” conforme confessou em recente entrevista, foi construído um pequeno pavilhão segundo desenhos seus, quando tinha 15 anos.

“Não sabia nada de nada do mundo da arquitetura”, mas com as indicações do pai e os saberes do mestre-de-obras, o pavilhão fez-se.

Nem ele nem ninguém podiam pensar, na altura, que estava a nascer a extraordinária carreira do mais famoso arquiteto português de todos os tempos.

 

Texto de José Salgado (Arquiteto)