QUANDO A HOSPITALIDADE TRAZ GENTE À CASA

No dia 16 de Dezembro, pelas 19:30, a CASA DA ARQUITECTURA lançou uma edição própria que alia a atitude da hospitalidade ao desenho, à arquitectura e ao pensamento crítico: o livro “Álvaro Siza – Desenhar a Hospitalidade”.

Esta saudável mistura não podia deixar de ter como resultado uma CASA repleta de pessoas, num momento alto não só de conhecimento como de criatividade e afectividade, não fosse o autor o Prof. Nuno Higino e o objecto de estudo os desenhos do Arq. Álvaro Siza.
 

Apresentação do livro “Álvaro Siza – Desenhar a Hospitalidade”:

1. Eu sempre quis desenhar. Recordo-me de ser pequeno e ficar a olhar os meus colegas de Escola que queriam desenhar um cão e desenhavam um cão. Queriam desenhar uma ovelha e desenhavam uma ovelha. Queriam desenhar um coelho e desenhavam um coelho. Eu queria desenhar um cão e saía um coelho, uma ovelha ou um monstro qualquer. E pensava comigo: porque é que a mão não obedece à imagem que tenho na mente ou diante dos meus olhos? E concluía: a mão é um cego que não se deixa guiar! Esta foi a minha primeira hipótese sobre o desenho.

2. Cresci com a frustração de não ser capaz de desenhar um cão. Ainda hoje não sou capaz de desenhar um cão. Nunca o serei. A vez em que estive mais próximo de conseguir desenhar um cão foi quando tentei desenhar uma ovelha. Ou um coelho, já não estou certo.

3. Nunca me deitei no divã da psicanálise, mas eu acho que a investigação que desenvolvi na Universidade Complutense entre 2003 e 2007, e da qual é retirado este texto, foi um ajuste de contas com a minha frustração: se quando quero desenhar um cão, sai um coelho; se quando desenho um coelho, sai uma ovelha; se quando desenho uma ovelha sai um cão, há na minha fauna mental um desajuste preocupante e que deve ser tratado.

4. Sentei-me, então, a observar como desenham aqueles que desenham um cão quando querem desenhar um cão e desenham um coelho quando querem desenhar um coelho. Sentei-me como um predador à espera da presa. Mas também aqui dei uma no cravo e outra na ferradura. Quero dizer: escolhi bem a presa (Álvaro Siza) mas errei na escolha do ponto de observação. Eu explico:

5. Pensei que a fenomenologia era um bom posto de observação para mim: comecei a reunir bibliografia, a ler, a fazer anotações, a encaminhar hipóte-ses. Andei meses nesta vida. Um dia caí na realidade: como posso fazer uma investigação consistente a partir da fenomenologia se não sei alemão para ler Brentano, Husserl e Heidegger?

6. Andava eu a patinar desorientadamente por entre estas dúvidas existenciais quando começaram os cursos lectivos de doutoramento. Um desses cursos chamava-se ‘Jacques Derrida e as Belas Artes’. Era um dos cursos em que me tinha inscrito: não por alguma convicção particular mas porque me garantia 3 créditos. Ouvi a primeira aula de boca aberta. No final, dirigi-me ao professor e disse-lhe: ‘Este é o meu filósofo’.

7. Contei-lhe as minhas intenções e falei-lhe do meu desnorte. E disse-lhe resolutamente e atrevidamente: ‘vou mudar o meu posto de observação e tu serás o meu orientador!’.

8. ‘Hombre, estás loco!’, respondeu-me resolutamente também, mas responsavelmente. E preveniu-me: ‘A desconstrução tem má imprensa, é de difícil acesso e vai-te fechar portas no teu futuro académico’.

9. ‘Se assim é, mais uma razão para escolher esse caminho’, respondi-lhe.

10. Não sei se vencido pela minha entusiástica irresponsabilidade, se na convicção de que aquilo não ia dar em nada, deixou-me avançar e deu-me a primeira orientação: ler Nietzsche e Heidegger.

11. ‘Mas o meu autor é Derrida’, atirei.

12. ‘Se queres que seja teu orientador, obedece! Só depois de leres estes autores poderás ler Derrida’.

13. Vejam bem: eu que queria apenas ver como é que se desenha um cão, uma ovelha ou um coelho, estava metido numa embrulhada monumental. Obe-diente, de rabo entre as pernas, meti-me na casota e assumi a minha irres-ponsabilidade.

14. O resto não é difícil de imaginar: dias, meses, anos de trabalho penoso; e noites e noites a ladrar à Lua…

15. A história não terminou mal, mas ainda agora me pergunto sobre as razões daquele amor à primeira vista por um autor que até aí me era completamente estrangeiro. A razão não responde à paixão, como se sabe, mas eu julgo que é naquele perigoso ‘talvez’ de que falava Nietsche que estará o meu fascínio por este modo de interpretar a realidade desenvolvido por Jacques Derrida. O sim e o não tornam a vida mais fácil, mais funcional e mais segura, sem dúvida. Mas, que diabo!, não é o ‘talvez’ que abre uma porta à esperança, nem que seja para essa derivação tão simples da esperança que não espera mais do que desenhar um cão que se pareça com um cão?

16. Sempre tive uma simpatia maliciosa pelos sabotadores das expectativas, por aqueles que têm o dom de colocar em apuros os soberbos do saber. Que prazer me dá – tenho de o confessar – quando os donos da interpretação começam a gaguejar e a recuar para os seus esconderijos!

17. Encontrado o meu posto de observação – instável e perigoso, já se vê, mas com umas vistas fantásticas – pude então observar a minha presa. Não tive que esfregar os olhos ou dar murros no peito (como Odisseu) porque o que eu passei a ver era maximamente simples: desenhava um cão que parecia um cão; desenhava uma ovelha que parecia uma ovelha; desenhava um cavalo que parecia um cavalo.

18. E mais: desenhava uma igreja que parecia uma igreja; desenhava um museu que parecia um museu; desenhava uma adega que parecia uma adega; desenhava uma casa que parecia uma casa.

19. Ele desenhava tão naturalmente que parecia fazê-lo de olhos fechados, como se soubesse o mundo de cor. Foi, então, que eu confirmei a minha hipótese inicial e infantil sobre o desenho: a mão é um cego que não se deixa guiar. Não se deixa guiar porque um cego não pode guiar outro cego.

20. É isso: a cegueira do saber. Foi o que eu aprendi lá de cima, dependurado no meu posto de observação, a ponto de me despenhar e despedaçar no abismo.

21. Este texto reúne as coisas que eu vi e observei, ou talvez melhor: as coisas que eu julgo ter visto e observado. Este texto é um testemunho, não mais do que um testemunho.

22. Este texto – pobre Editora que o editou! – não vende, não rende, não entu-siasma, não resolve problemas, não alivia a crise. Mas que querem, eu acredito nele…

23. Muito obrigado pela vossa presença.

Nuno Higino, 16 Dezembro de 2010

 

 

O livro está disponível para aquisição na LOJA da CASA.

P.V.P.: 12 euros

P. ASSOCIADO: 10 euros

 

APRESENTAÇÃO DO LIVRO:

“O presente texto, retirado, em boa parte, duma investigação de doutoramento apresentada na Faculdade de Filosofia da Universidade Complutense de Madrid em 2007, ensaia uma operação de transplante: toma o conceito de hospitalidade, geralmente associado ao terreno do ético, do político e do jurídico, e transfere-o para o campo do estético e, em particular, da criação artística. Guiado pelo estilo desconstrutivo de Jacques Derrida (1930-2004) faz anotações sobre a forma como reage a hospitalidade a este transplante. Não se trata dum exercício abstracto, pois é aplicado a um caso concreto: os desenhos de Álvaro Siza. Reflecte também sobre as questões prévias e de fundamentação: haverá alguma forma de legitimidade que suporte a deslocação dos marcos que delimitam os territórios do saber? Poderá o estético receber pacificamente e suportar a intromissão de um estranho no seu território?”

 NOTA BIOGRÁFICA DO AUTOR:

Nuno Higino (Felgueiras, 1960) é professor de filosofia e sociologia na Universidade Fernando Pessoa. É licenciado em Teologia e doutorado na área da Filosofia Estética com uma tese apresentada na Faculdade de Filosofia da Universidade Complutense, em Madrid, sobre os desenhos de Álvaro Siza, uma leitura a partir de Jacques Derrida. Integra a equipa de trabalho da Associação Casa da Arquitectura. Faz parte da direcção da Cooperativa Árvore e da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Tem vários títulos publicados da área da poesia e da Literatura infanto-juvenil.

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