PAULO MENDES DA ROCHA É O PRIMEIRO SÓCIO HONORÁRIO DA CASA DA ARQUITECTURA

 

O arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha, Prémio Pritzker 2006, é o primeiro sócio honorário da Casa da Arquitectura. A distinção foi anunciada durante a inauguração da Exposição “Infinito Vão – 90 Anos de Arquitectura Brasileira” que decorreu no fim de semana de 28 a 30 de setembro. Nessa altura, abriu igualmente a Exposição “Duas Casas de Paulo Mendes da Rocha” com curadoria do arquiteto Nuno Sampaio, que vai ficar patente, na Galeria da Casa, até 10 de fevereiro.

 

A atribuição do título decorreu no âmbito de uma Cerimónia de Atribuição de Sócios Honorários 2018, que distinguiu também o coletivo dos doadores da Coleção Brasil, tendo estado presentes os seguintes representantes: Adriana Soares, Ana Maria Wilheim, Mário Biselli e Artur Forte Kstchborian, Carlos Eduardo Warchavchik, Marcelo Ferraz, Lucas Fehr, Giorgia Gerassi, Joan Villa, Mauro Munhoz, Paula Porto, Fábia Enrique Faria, Diego Inglez de Sousa, Wagner Germano e o próprio Paulo Mendes da Rocha.

 

A cerimónia contou com a presença do Presidente da Direção da Casa da Arquitectura, José Manuel Dias da Fonseca, do diretor-executivo da CA, Nuno Sampaio, da presidente da Câmara Municipal de Matosinhos, Luísa Salgueiro e do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, que entregou o diploma de sócio honorário a Paulo Mendes da Rocha, um “homem de princípios, coragem e visão”, como referiu Nuno Sampaio no discurso de atribuição.

 

Leia aqui o texto na íntegra:

 

“Paulo Mendes da Rocha, professor e arquiteto brasileiro, nasceu no dia 25 de outubro de 1928 em Vitória, capital do Espírito Santo. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, a sua coerente trajetória ampara-se no domínio virtuoso da técnica e na liberdade expressiva da arte.

Sua generosidade se reflete em seus projetos, otimistas e conscientes do valor da construção de uma sociedade mais justa. A dimensão política de seu discurso dá aos seus projetos a crítica à condição humana contemporânea. Sua obra demostra que a arquitetura é invenção, abriga a imprevisibilidade da vida, e nos propõe uma visão particular de um novo mundo.

Mendes da Rocha é dono de uma capacidade ímpar de fazer a leitura do momento histórico, social e político, e da realidade que cerca a profissão. Homem de princípios, coragem e visão, ele observou durante a infância o movimento dos navios do porto na sua cidade natal e foi absorvendo as lições de seu pai, que projetou barragens e dirigiu a mais importante escola de engenharia do Brasil. Sua infância foi passada na época áurea do Rio de Janeiro e a juventude em São Paulo, onde se diplomou arquiteto e encontrou solo fértil para se manifestar.

Ao longo de sua profícua carreira, projetou engenhos humanos que refletem um posicionamento estruturado que antes de dar respostas, sabe definir os problemas a resolver. Os exemplos são abundantes: o Ginásio do Clube Paulistano, em São Paulo (1958), o Pavilhão do Brasil na Expo de Osaka, no Japão (1969), o Estádio Serra Dourada, em Goiânia (1973), o Museu Brasileiro da Escultura, em São Paulo (1986) e a Pinacoteca do Estado, também em São Paulo (1993).

Foi perseguido pela ditadura militar que lhe restringiu a liberdade no acesso ao trabalho e impediu de continuar a ser professor por 10 anos. Antes disso, e após a redemocratização do Brasil, ensinou gerações de arquitetos na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo ­– onde foi interlocutor de João Batista Vilanova Artigas e Flavio Motta, entre outros.

Sua humildade e a rejeição à auto promoção não impediram o reconhecimento internacional de sua trajetória. Ao lado de Siza, o brasileiro é um dos seis profissionais vivos laureados com as quatro mais renomadas distinções da arquitetura: Prêmio Pritzker, Leão de Ouro da Bienal de Arquitetura de Veneza, Medalha de Ouro Riba e a Medalha Imperial do Japão.

Mendes da Rocha exerce o seu ofício em parceria com equipas de engenheiros e arquitetos, transmitindo conhecimento para um expressivo número de colaboradores no Brasil e no exterior. Essa privilegiada equipa é composta desde seus contemporâneos na Faculdade de Arquitetura Mackenzie – como João Eduardo de Gennaro, Pedro Paulo de Melo Saraiva, e Fábio Penteado – até os colegas mais jovens, como Eduardo Colonelli, Milton Braga, Marta Moreira, Fernando de Mello Franco e Martin Curullon. Em Portugal, tive a oportunidade de integrar a equipa de projeto do Museu Nacional dos Coches, com Rui Furtado e Ricardo Bak Gordon. Também em Portugal houve a frutuosa parceria com Inês Lobo na Casa do Quelhas, obra aqui presente na exposição “Duas Casas” na Galeria da Casa da Arquitectura.

Mendes da Rocha faz do “encontro” a razão de ser da cidade e da arquitectura, uma forma de constituir um lugar suficientemente capaz de fazer perdurar esse encontro.

A obra de Paulo Mendes da Rocha, uma das mais prestigiadas e reconhecidas em todo mundo, tornou-se “universal”, um “lugar comum” da arquitetura respeitada, uma referência singular, plena de sentido e coerência no mundo contemporâneo. Para ser compreendida deve ser lida como um todo, em que cada realização faz parte de um universo mais amplo, claro, translúcido e nítido: o seu.

Felizmente não é um universo simples ou de compreensão imediata, requer preparação e alguns instrumentos para a sua compreensão, mas é um universo sistematizado, organizado, ordenado e pleno de sentido, tal como a sua arquitetura.

É obra de um profissional universal, uma referência cultural que nos lembra o indizível: a arquitectura, quando idealista e corajosa, emana dimensão política.

Numa nota pessoal, porque é impossível de separar a pessoa do arquiteto, Paulo Mendes da Rocha, que é seguramente a pessoa mais coerente que conheci até hoje, transfere para a sua produção a mesma coerência que é transversal à sua forma de pensar e de agir, reduzindo à inexistência qualquer possível dissonância cognitiva do processo criativo e na vida.

É com muito gosto e orgulho que em nome da Casa da Arquitectura chamo o Arquitecto Paulo Mendes da Rocha para receber o título de Sócio Honorário desta instituição. Vai entregar o diploma o Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva.”